Terça-feira, 19 de Agosto de 2008

" A SEITA DOS SACRIFÍCIOS MACABROS"!- II-PARTE- A OFERENDA DE SANGUE.//ELTON DAS NEVES.


As vozes sinistras reboavam no ar frio, e, envolvido por uma neblina que de tão densa podia-se cortá-la com uma faca, elas entoavam um cântico de sonoridade sombria e tétrica, parecia até que as gargantas dos antigos bruxos haviam sido abertas novamente para entoá-las, o numeroso grupo de encapuzados que trajavam túnicas negras, levavam a jovem vitima que gritava desesperadamente pedindo que á soltassem, no entanto continuando com seu funesto canto ritualístico, o macabro grupo continua sua marcha ignorando tal pedido, e pisando no terreno úmido e verdejante rumo ao seu destino certo. Enquanto alguns levam a garota que tem seus braços e pernas amarrados, sob uma tábua amarronzada com duas varas em suas laterais para que segurando nelas pudessem carregá-la, o restante caminhava solenemente carregando tochas acesas em suas mãos, para iluminar seu caminho ante as trevas da madrugada que caia como um véu negro sobre suas cabeças funestas, tendo sempre presente em seus lábios a entonação do já citado malogrado cântico. Chegados ao seu ponto de destino, a procissão ritualística de indumentária preta subitamente para. Eles estacam diante de uma superfície elevada, um altar de pedra trabalhada com um símbolo muito singular nele esculpido, se trata da figura de quatro luas sobrepostas lado á lado. A histérica jovem deitada sobre a superfície de madeira, é colocada sobre o altar, seus berros de medo e angustia ganham eco sobre a imensidão vazia e escura daquela quinta aonde se encontravam, então do enorme grupo daqueles indivíduos, destaca-se um homem, mesmo trajado de túnica e capuz que lhe escondiam suas feições e linhas delineadas de seu corpo, notava-se sua alta estatura que deveria medir calculando pela sua simples visualização, um metro e noventa e oito, dono de provavelmente cem quilos de pura massa muscular. O que parece ser o líder do grupo vestido de negro em questão levanta sua mão direita no que as vozes de súbito se calam, menos obviamente o da garota que continua á pedir clemência e sua suposta libertação. Tal problema é resolvido quando alguém dela se aproxima para amordaçá-la, sua voz abafada pelo aperto do pano escuro em sua boca, desaparece em meio ao poderoso turbilhão de horror que á cada momento parece crescer dentro dela. O silêncio agora reina absoluto, e depois de algumas frações de segundos, só é quebrada pela voz do líder que munido pela autoridade que tem, se dirige aos seus fies sectários dizendo-lhes: - Meus irmãos, seguidores da “antiga religião”, nesta noite, mais uma vez temos a oportunidade, de oferecermos á “grande Deusa” o sacrifício de vida humana que lhe é devido, para aplacar sua grande fome por vidas, e para trazer bênçãos, graças e força ao seio do nosso grupo de eleitos. É uma troca justa de presentes, entre nós e nossas divindades pagãs, recebemos seus inúmeros favores em troca do poder do sacrifício humano que alimenta sua força enquanto deuses que são. Olhem para a lua,ela está minguante, é tempo da grande Deusa mostrar uma de suas várias faces, á deste período ela se revela como a grande anciã, velha e sábia,conhecedora dos maiores mistérios da vida e da morte. Sim vida e morte, é o que vamos celebrar agora. Neste período de ocaso para nós, da lua que mingua, oferecemos a vida de uma vitima imolada, para que possamos depois de experimentarmos a morte espiritual, tenhamos por meio desta oferenda, das mãos de nossa grande mãe, a ressurreição de nossas almas. E assim partiremos depois para um novo período, aonde felizes, contemplaremos uma outra manifestação de uma das já citadas e diferentes faces da nossa grande Deusa, a lua crescente.
Um murmúrio de contentamento ecoa por meio dos lábios do grupo, que até então ouvira em absoluto e atento silêncio o seu mestre. Então ao acabar de proferir tais palavras daquele discurso doentio, ante o olhar cheio de expectativa de todos os presentes, e para o total pânico da jovem moça que amarrada e amordaçada está posta no altar, iluminado pela luz pálida da lua minguante que se ergue dependurada sobre o breu daquele firmamento despido de estrelas, juntamente auxiliada pelas luzes dos archotes acesos de chamas bruxuleantes, o líder retira do interior de sua indumentária sacerdotal preta, um punhal prateado com um desenho em sua lâmina, gravado á ouro das mesmas quatro luas sobrepostas paralelamente entre si, que figuram no altar de pedra, então se dirigindo para aonde está a jovem vitima que está para ser imolada, e que tem seus olhos esbugalhados, tentando soltar o grito que está preso e abafado pela mordaça que lhe tampa cruelmente a boca, ela só consegue em fracionários e angustiados segundos, vislumbrar o brilho da afiada lâmina, que erguida pela mão do seu algoz, desce impiedosamente sobre seu peito, entrando fundo, fazendo com que uma dor aguda e de sensação perfuradora se materialize em seu tórax. Então um grito em meio á escuridão é ouvido, mas não é da moça vitimada pelo punhal, pelo fato dela estar amordaçada, mas de Fernanda que desperta das lembranças do passado em um horrível pesadelo que parece se repetir toda noite.


CONTINUA...









Domingo, 17 de Agosto de 2008

A SEITA DOS SACRIFÍCIOS MACABROS!-I PARTE- ENCONTRADA ENTRE ÁS ÁGUAS.//ELTON DAS NEVES.




A noite cai sob a cidade como uma sombra escura á preencher todos os espaços, o breu só é amenizado pelas luzes artificiais das lâmpadas dos postes, dos hospitais, das casas comerciais e residenciais. Sentado diante do meu microcomputador, tento pensar no enredo de um conto fictício, mas nada passa pela minha cabeça que briga desesperada com seus neurônios, para ver se alguma idéia passa por eles, através das descargas elétricas pela quais eles se comunicam uns com os outros, mas neste embate, ela, minha cabeça, não obtém bons resultados. Alguma coisa em especial me perturba neste início de noite, é algo que meu consciente quer ignorar, mas meu subconsciente por sua vez não o permite, chego á me amaldiçoar por isso. Como depois de tudo que aconteceu ainda consigo pensar nela, cadê a minha vergonha na cara, cadê o meu brio?Lembro-me como se fosse hoje quando á encontrei na rua totalmente abandonada, debaixo de uma chuva torrencial, seu corpo encharcado tremia fustigado pela água gelada que lhe vinha dos céus, seus lábios estavam roxos, o sangue estava congelando já em suas veias, cada célula do seu corpo parecia estar inundadas pelas profusas e grossas gotas da tempestade que desabava sem compaixão sobre sua castigada cabeça. Quando me aproximei dela com meu corsa sedã azul, pelo vidro fechado da janela do veículo,pude vislumbrar seus negros olhos pedintes por clemência e ajuda, sendo assim não pude deixar de dá-la, fiz sinal para que desse á volta e adentrasse pela porta do meu carro que já lhe tinha aberto, sem pestanejar a garota moveu-se rapidamente por sobre seus pés,e toda trêmula pelo açoite do frio que castigava com extrema crueldade seu frágil corpo, ela senta-se ao meu lado no lugar do passageiro,batendo a porta fechando-a,para depois se encolher toda envolvendo-se em um auto-abraço com seus braços de mãos roxas e enrugadas pela gélida água que lhe escorria profusamente. Sem perder tempo passei a marcha do carro, pisei fundo no acelerador e arranquei com velocidade em direção ao meu apartamento que ficava á uma quadra dali, em poucos minutos já estávamos em dentro do elevador do prédio, os primeiros espirros de uma forte gripe que vinha chegando eram dados pela garota que eu por pura piedade resolvera ajudar acolhendo-a em meu apê de cinco cômodos, logicamente por esta descrição que faço não se trata de nenhum desses fabulosos decorados que constroem por aí, mas também não é nenhuma pocilga que seja ruim de morar, muito pelo contrário, o apartamento em questão é muito confortável e acolhedor. Assim que bato á porta de entrada de minha morada ás nossas costas para depois trancá-la com minha chave, peço-lhe que me aguarde por um instante, quando volto trago comigo uma toalha de cor alaranjada, lhe aponto á direção do banheiro, e digo-lhe que tome um banho bem quente, enquanto procuro roupas secas que possa vestir substituindo aquelas que estava trajando e que de tão molhadas lhe grudavam no corpo. Prometi também que quando voltasse uma xícara de chá fumegante lhe seria servida para reanimá-la de todo aquele gelo que aquela impiedosa tempestade que pegara na rua lhe envolvera. Passados dez minutos, a menina que aparentava ter seus dezessete anos de idade, sai do meu banheiro enrolada na toalha que lhe arrumei para que então se lavasse, entrego-lhe algumas peças de roupa que me pertencem, uma camiseta e uma calça de moletom, logicamente que tais trajes hão de lhe ficar grandes e folgados por eu ter o dobro do seu tamanho, mas aquilo foi o máximo que poderia fazer naquele instante, afinal aonde poderia arrumar peças de vestuário que lhe fossem adequadas, eu morava sozinho, não poderia, por exemplo, pegar emprestado roupas de uma mulher que vivesse comigo e que tivesse ou se aproximasse do seu biótipo, a garota que recebia ainda um pouco trêmula aquelas vestimentas em suas mãos, deveria ter não mais que um metro e sessenta, e pesar aproximadamente cinqüenta e oito kilos. Depois de também deixar com ela a já prometida xícara de chá mate que de tão quente fumegava no recipiente que o continha, eu saio da sala para lhe dar privacidade para que ponha as roupas que lhe emprestei, quando retorno, ela já se encontra devidamente vestida, sentada em um dos meus sofás pequenos, segurando a esfumaçante xícara de mate com suas duas mãos levando-a bem junto á sua boca, seus cabelos negros com fios ondulados caem em cascata por sobre seus ombros, enquanto bebe o reanimador liquido quente que parece penetrar em cada ínfima fibra do seu ser, trazendo a sensação de um reconfortante calor que parece retornar ao seu corpo que horas atrás fora açoitado pelo látego impiedoso do frio, ela tem um olhar taciturno o que lhe empresta um ar de aspecto sombrio, sentando-me na outra poltrona que fica postada quase que lateralmente á que ela está sentada, lhe dirijo um olhar fixo e curioso, e faço-lhe a pergunta que não quer calar:- Posso saber seu nome?-dirigindo-me aquele olhar entremeado por sombras espessas, ela com sua voz rouca me responde:- Meu nome é Rafaela!Obrigado pela sua ajuda,quase não posso acreditar que parou para me acudir, a maioria das pessoas não agem desta forma tão solidária.
- Não me agradeça, mas sim aos teus olhos negros que praticamente me gritaram socorro quando os vislumbrei da janela do meu carro,aliás olhando melhor pra eles agora,noto que você praticamente se comunica com seu olhar tamanha a expressividade dele.

CONTINUA...

A primeira foto á direita é uma cena do filme intitulado-“Obrigado por fumar”!- os atores em cena são Aaron Eckart e Katie Holmes.


Ficha Técnica
:
Obrigado por fumar-(Thank you for smoking).
País/Ano de produção: Estados Unidos, 2006, Duração/Gênero: 92 min., Comédia. Direção de Jason Reitman,Roteiro de Jason Reitman, baseado em livro de Christopher Buckley. Elenco: Aaron Eckhart, Maria Bello, Katie Holmes, William H. Macy, Robert Duvall, Rob Lowe, Adam Brody, Sam Elliott, Cameron Bright, David Koechner.










Terça-feira, 12 de Agosto de 2008

BOCAS, LIBIDO E SALIVA, UM EXTÂSE DE PURA PAIXÃO.




Tua boca faz a minha uma piscina de saliva, água na boca, língua enroscada, molhada e ferida, você me provoca um desejo insano, os teus beijos diabólicos incendeiam meu corpo, de tão atiçado ele fica desgovernado, o seu então se torna seu verdadeiro e único amo.

Teu suor em gotas profusas eu engulo, em meus lábios docemente feridos eu o recolho, a minha sede insensata pela tua essência é assim matada. Torno-me deste jeito um só contigo, metamorfoseio-me em você, e á mim tu te tornas, somos pintura do mesmo quadro, a casca da mesma fruta, o grito orgástico que sai da mesma boca, o sussurro sensual proferido pelo mesmo lábio, somos metades da mesma laranja.

Tuas coxas grossas se confundem com as minhas, seu ventre se esfrega ao meu, teu perfume de pitanga entra em meus poros fazendo estremecer até mesmo o meu eu. Tua virilha entrando em atrito com a minha, faz-me ser totalmente teu, seus seios fartos e redondos com seus mamilos eretos, tocam meu tórax fazendo-me entrar em pura convulsão de louca paixão, neste momento tu te tornas dona da situação.

Tu és gata ferida pela flecha do cupido, e é em meu ouvido que soltas tuas palavras apaixonadas que me levam á perdição, que fazem meus pés saírem do chão. Quando as ouço não tenho outro jeito se não te entregar toda minha essência, toda minha conquistada alma, em tua mão deposito neste momento meu ego total e completo, tu te tornas assim senhora única e absoluta de todo este meu grande e vasto universo.












A POSTAGEM ACIMA E INTITULADA,BOCAS,LIBIDO E SALIVA, UM EXTÂSE DE PURA PAIXÃO, É DA AUTORIA DE ELTON DAS NEVES O ANJO DAS LETRAS.

Quarta-feira, 6 de Agosto de 2008

O AMOR QUE NÃO TEM NOME!-O INVENTÁRIO DA DOR.




I
Diga-me agora você, em que ponto da nossa estrada eu te perdi, me mostre aonde quase que mortalmente te feri. O meu amor por ti é incomensurável, o seu nome é impronunciável, ele é imenso, infinito, no entanto cabe aqui dentro do meu peito ferido. Eu grito dentro da minha imensa dor para que você me escute, e assim compadecida possa me dar de novo teu desejado amor, tal qual um ator, eu ensaio um drama trágico de Shakespeare, me engraço com a morte, em um flerte fatal, verbal, espiritual.

II
Meus pulsos sangram, e minha alma por eles escoam, feito liquido frio ela se esparrama pelo chão, para mim não há mais da parte do amor uma linda canção, sou pura negação, sou intocada perdição, só junto do teu pode bater feliz o meu apaixonado coração. Quero comer tua carne macia, mastigá-la em meus dentes da onde escorrem o puro ácido da torpe vingança, não aceito ser abandonado por ti, só consigo respirar ar puro junto ao doce acalanto do teu colo. O teu abandono é um súbito tiro disparado á sangue frio em meu desprotegido peito, eu não sangro com as minhas artérias, mas com a minha alma ferida e pela tua renuncia destroçada, agora sem ti, sei que constantemente a minha companheira será a desgraça.

III

Eu sei que por mil vezes eu te parti como se faz ao jogar no chão um frágil espelho, eu sei que o teu terno amor não mereci, sei que agora os meus erros se voltam contra mim, e é assim, eles se transformam em sombrios demônios que me molestam com ardentes tenazes, queimando minha carne, deixando-a mortalmente ferida. Sei que sou merecedor do teu abandono, por tantas vezes que te maltratei meu bem, mas imploro teu perdão que agora se tornou minha grande ambição, meu desejo único é alcançá-lo, e por ele ser totalmente redimido. Em minhas veias inchadas, corre a droga do desespero, ela é levada pela minha corrente sangüínea direto ao meu coração partido, ele se sufoca em amargas lagrimas que brotam em meus olhos injetados e vermelhos, por continuo e doloroso pranto por ti. Nunca antes tinha eu sofrido assim, nunca pensei que por amar tanto alguém iria descer as regiões mais obscuras do inferno, nele caminho sem ser guiado por um sábio Virgílio***, peço somente em prece angustiada á Deus que me devolva seu amor, me concedendo de novo a doce visão do paraíso perdido e por mim, quase esquecido.



*** Virgílio- nasceu em 70 antes de nossa era, em Andes,Mântua, Itália; morreu no ano 19, antes de nossa era,em Brundisium, hoje Brindisi, Itália) poeta romano da antiguidade, na clássica obra de Dante Alighieri “A divina comedia”, é o companheiro de Dante em sua viagem aos recintos do inferno.


A postagem acima e intitulada “O amor que não tem nome”!-inventário da dor, é da autoria de Elton das Neves, O Anjo das Letras.



Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

SEDENTO POR SANGUE-VI E ULTIMA PARTE-(A DESCOBERTA!)//ELTON DAS NEVES//CLÁUDIO QUIRINO.


Em lados opostos, as duas criaturas se encaravam raivosamente, quase que prestes a lançar uma maldição. De um lado, um deles fungava de uma maneira mais abrupta, tentando rastejar pelas laterais como se buscasse a rota de fuga mais fácil. O outro, parecia mais impassível. Com os passos mais largos, percorria em mínimos cuidados possíveis para não dar chance à investidas brutais do adversário. Estudava minuciosamente os estágios de observação, mas não definia uma precisão exata no olhar sombrio da fera. Um rugido estridente reverberou por toda a área do parque e logo foi acompanhado por outro som mais distante.
Seguindo na mesma direção até alcançar um único ponto comum, a sua frente, ambos correm na busca pelo predomínio da força física. Segundos depois, se encontram, causando um estrondo brutal entre eles. Na medida em que os corpos se chocam, um deles é arrastado bruscamente, deixando um rastro de poeira levitar no ar, mas logo a posição é recuperada. Num nível menos formal, os ataques golpeavam os membros menos frágeis na tentativa de fazer minar forças mais dissipativas. Ao longo do combate, o maior deles revigora os tendões dos braços, acertando um soco no lombo e, segundos depois, arremessa o inimigo mortal num sopapo.
Levantando-se novamente, quase cambaleando, salta sobre a criatura no arremesso do peso corporal, causando um baque rápido. Na mesma hora, os dois vão ao chão. Um pouco acima, dominando, ergue para o ar suas longas garras e crava no rosto do perpetrador. Um urro de dor faz estremecer a confiança de uma vitória. Não teve tempo quando um braço peludo adejou-lhe um soco, fazendo com que a fera se esparramasse ao lado.
Do outro pavilhão, Rodolfo Gardel avançava para se aproximar mais da localidade. Quando finalmente pôde ver o que se sucedia, um arrepio intenso percorreu todo o corpo. Completamente confuso não sabendo como agir diante daquela situação percorreu o alabastro que levava à fonte de água potável. "Então, são dois deles?" As regras tinham sido perdidas naquela noite imbatível. Caminhou um pouco mais, fazendo um sinal para os demais expectadores que observavam perplexos as duas feras combatendo entre si. Todos pareciam extasiados. Um deles foi em direção a Gardel, com a menor das maletas na mão, com extremo cuidado para que não fosse notado, por mais que achasse difícil as criaturas ao menos perceberem sua presença invisível. Mais, o que presenciavam a frente, iriam saber mais tarde quando tudo acabasse de alguma forma.
Minutos depois, quando percebeu uma distração das feras que ainda se limitavam apenas ao combate corporal, Gardel rapidamente abriu a tal maleta e pegou um objeto oval com algumas engrenagens superiores um pouco próximas do botão de pressão. Nada daria errado, pois todos estavam longe do acontecimento e ele, num local protegido. Agora, era a hora mais apropriada para o último ataque, completamente infalível nas mesmas ocasiões. Abaixado no alabastro a fonte, caminhou poucos metros. Estando na vista frontal do perímetro, retirou o lacre do objeto em suas mãos e pressionou a protuberância central. Depois, pegou uma arma mais requisitada para ocasião. Um fuzil metálico longo na borda e com uma potência dimensional bem maior que todas as já usadas.
Num arremesso forte, lançou o aparelho sobre as criaturas. Bem depois, uma nuvem intensa de fumaça envolveu-os numa névoa em formação. O odor forte dos nitratos químicos enevoou-se pelo espaço já quase alcançando as pessoas que observavam espantadas, fazendo-as num gesto insuportável protegerem-se das emanações. No local, tudo ficou invisível e as feras sumiram de vez. Aproveitando a boa oportunidade, Gardel levantou-se e correu até eles e esperou que a fumaça melhor se espessasse pelo ar para que a sua visão fosse acurada e precisa. Numa agilidade certa, mirou a arma em um deles e, quando já ia pressionar o gatilho, uma voz soou entre a multidão. Era Cláudia.
Os policiais tentaram impedi-la, mas estava distante do perímetro. Com as mãos suplicando, gritava para que não atacasse o marido.
- Não! O outro animal é quem assassina as vítimas! Quasímodo não é capaz de tal atrocidade.
As feras foram encurraladas. Gardel tremia em frente à base central da fonte. Sem entender mais nada, pediu que os homens fechassem ainda mais o perímetro de forma a não deixar escapar as criaturas.
- Como não? - adiantou Justino, impaciente. - Seu marido foi visto com sangue fresco na camisa. Também sempre estava nos locais em que se aconteciam os crimes. Mas, o DNA não era de nenhuma das vítimas. Pode, então, explicar isso?
- Claro que não foi constatado ser das vítimas. Eu mesma alimentava o meu marido todas as noites de lua cheia para que não atacasse... - ela olhou para uma das feras, apontando. - A não ser esse daqui! Tenho todos os comprovantes de compra em casa, caso queiram constatar a verdade do que eu estou dizendo. Tenho certeza de que um exame do sangue de Quasímodo também se provaria à mesma coisa.
- E por que encontrávamo-lo nos mesmos locais dos assassinatos? - perguntou o prefeito, horrorizado, vendo a lógica da questão. Sabia bem que Cláudia sempre freqüentava o açougue municipal.
- Acho que devem lembrar do episódio de Guarujá, onde quatro jovens foram dilacerados num acampamento - ela olhou Gardel. - Naquele dia, a fera atacou com vontade. Por algum motivo, não tinha propósito de matá-lo, ou seja, Quasímodo escapou da morte, por mais que fosse mordido pela criatura no pescoço. Algumas semanas depois, eu percebi muitas inquietudes nos comportamentos dele, mas em noites de lua cheia, ele se transformava nessa coisa horrível. Tudo por causa desse desgraçado que meu marido jurou caçá-lo até à morte. Essa é a lenda, matando o lobisomem, meu Quasímodo estaria livre.
- Quer dizer que essa outra criatura mordeu o seu marido com intenção de não matá-lo? - Gardel se perdeu na questão. - Quando isso chega a acontecer o corpo passa por mecanismos de conversão. Tempos depois as estruturas moleculares da vítima se assemelham ao da fera e, este passa a transformar-se em lua cheia.
- Sim, isso mesmo - ela assentiu. - Por todas as cidades, perseguimos o lobisomem assassino para tentar capturá-lo, mas os noticiários locais sempre acabavam espantando o andamento das novas vítimas. Então, Quasímodo o seguia pelos rastros, provas e ainda mais pelo faro que se desenvolveu com o tempo. Depois que o alimentava com carne bovina fresca, ele sentia-se saciado pela sede da matar inocentes e focava na busca pelo seu alvo principal.
- E essa também era a razão por sempre estar perseguindo Quasímodo, pois achei que o mesmo fosse o assassino do meu filho Eric! - disse num tom rouco Gardel. - Nunca imaginei que fossem duas criaturas. Eu fui enganado!
- Foi esse infeliz que matou a minha sobrinha no dia 13 de julho, aqui na cidade, nesse mesmo espaço do parque também? - perguntou Justino com um ódio mortal nos olhos.
- Com a transformação, é impossível saber a identidade do verdadeiro assassino. Isso é o que Quasímodo quer saber. Quem é? - ela andou. - Não só ele, mas toda a cidade quer ter conhecimento disso. Só quero que acabe com tudo isso de uma vez e que meu marido seja como antes.
Todos estavam aterrorizados com as novas informações. O delegado Elias Goela caminhou quase tropeçando até Gardel e Justino para propor o término da execução. Próximo, as criaturas continuavam paralisadas pelo efeito da toxicidade dos agentes químicos do sangue. Sem mais pensar, Gardel caminhou até onde permaneciam as feras e olhou o lombo de ambos para começar pelo culpado, segundo Cláudia. Depois de avistar a cicatriz, voltou-se para o outro e encostou a arma no braço direito. Com rapidez, apertou o botão lançando uma bala cilíndrica de prata que logo perfurou a camada mais interna. Em seguida, usa a mesma ação no outro. Rapidamente, ambos se emborcam, tremendo de uma maneira demasiada. Cláudia observava com uma expressão apavorada o rosto do marido enquanto se entregava aos espasmos da transformação.
A extraordinária metamorfose passou a acontecer diante dos olhares dos expectadores. Os lobisomens, aos poucos, perdiam a forma de licantropos grotescos. Seus pêlos diminuíam, adentrando a pele, seu focinho e bocarra também se apequenavam parecendo estarem sendo sugados para dentro do seu rosto, suas orelhas grandes e pontudas, caninas, começaram a encolher e sumir, tomando a forma de orelhas humanas. Então, por alguns minutos, ambos puderam contemplar antes de perder os sentidos, os rostos dos homens. Um deles era mesmo o tal Quasímodo. O outro, era simplesmente Ravel. Ao reconhecer a figura que surgiu, nua, a sua frente, Justino Onça esbugalhou os olhos sem compreender aquilo que estava diante deles. Murmúrios múltiplos das pessoas assomaram-se ao espanto de saber a identidade do culpado. Com uma tontura repentina, o prefeito caiu, a expressão indecifrável.
Logo, tudo fez sentido para o administrador de Salém. O assistente era novo na cidade e havia sido muito bem recomendado por alguns amigos de partido e correligionários de outras cidades. Percebendo a falta de alguém competente, aceitou a proposta de deixá-lo por experiência no cargo, logo ganhando confiança extrema de Justino. Percebera então a complexidade terrível de compreensão dos fatos, pois no dia seguinte, o casal Cláudia e Quasímodo também chegou à cidade para fixar uma residência. Em mãos, o prefeito sabia que o contrato era temporário, já que o assassino, Ravel, quando percebia o círculo se fechar, fugia sem dar nenhum indício de sua culpa.
Caminhou até o assistente ainda em fase de recuperação, mas ciente dos acontecimentos que se sucediam. Quando tomou conta de que a descoberta aconteceu finalmente e estava sob os olhares atiçados que exigiam uma explicação. Cobrindo-se com as mãos, sentou-se e viu um homem se aproximar com uma rispidez maligna. Era Justino Onça.
- Todo esse tempo, Ravel, mortes aconteciam na nossa cidade. Jovens, adultos e até idosos não escaparam da fúria dum assassino que ainda desconhecíamos até o momento - andou um pouco mais. - E agora, eu descubro que era você? Tudo se liga numa cadeia lógica. Por quê?
- Por quê? - disse Ravel. - Os motivos são os mais simples possíveis, a começar por nascer na maldição de uma família infeliz, pobre, que não tinha nem ao menos condições de manter os próprios filhos. Lembro-me como se fosse hoje, quando fui deixado na beira do matagal para que me criasse sozinho logo que conheceram minha outra identidade. Como você reagiria sendo o sétimo filho, um amaldiçoado pela própria sorte?
- Isso não te dava nenhum direito de assassinar inocentes - inquiriu Gardel, com a arma ainda mirando nele.
- Esqueceu que todos os lobisomens precisam se alimentar? Nada mais apropriado que a carne humana, rica fonte de proteínas, suculenta, do jeito que minha espécie sempre gosta.
- Desgraçado! - Justino dá um tapa brusco no rosto do assistente. - Você estraçalhou a minha sobrinha! Não estava ciente disso? Matou também o filho de apenas 18 anos do Gardel.
- Sim, eu matei - ele riu, virando a face avermelhada do atrito. - Ainda lembro do rostinho dela naquela madrugada fria. Usei de todas minhas artimanhas animal para abordá-la. Deu mesmo certo. Meu corpo pedia por sangue jovem e por isso levei-a direto para o inevitável. O córrego silencioso, solitário... Pude sentir seus seios fartos em minhas mãos, sua carne macia acima do umbigo na medida em que o rasguei com meus dentes. Ali mesmo inaugurei o paço, com um jantar dos deuses, o que realmente julgava merecer. O mesmo aconteceu ao filho do Gardel... - Quasímodo ainda não despertara.
Justino avançou quase em golpes violentos, atingindo-lhe na cabeça, mas Gardel o segurou firme, tentando não impedir a morte lenta dele. Nessa hora, Ravel ainda tremia, suando quantitativamente. "Infeliz!"
- E as provas para me incriminar dos assassinatos? Pelo visto, tudo foi muito bem planejado - perguntou Gardel, lembrando-se das acusações dos papéis.
- Ora, ora - sorriu Ravel, fazendo uma careta de dor. - Tinha esquecido dos papéis que consegui. Bem, não há nada que um assistente muito eficiente não consiga nos autos da prefeitura. Nada mais justo que na cidade pequena de Salém, tudo esteja registrado. Com essa influência, pude ter o que queria, inclusive os depoimentos da polícia e desse aqui! Tudo era planejado com perfeição, mas você estragou tudo. Era para estar preso, Gardel. Por ironia do destino, o Quasímodo resistiu a minha investida mortal para ser mais um obstáculo na vida, como também você foi seu caçadorzinho impertinente. Tinha que tirá-los do meu caminho. Mas, pelos meus próprios erros, eu falhei. Não me arrependo por nada, era prazeroso.
- O estranho é que eu não tenha percebido que eram dois lupinos, e não apenas um só - lamentou o caçador, baixando a arma.
- Tudo muito bem simples. Eu sempre soube que você estava com suas armas perseguindo o Quasímodo. Tudo tão óbvio. Fazer o feitiço virar contra o feiticeiro. Sabendo também que a outra fera me perseguia por tê-lo tornado de nossa espécie, vi a oportunidade de unir o útil ao mais agradável - fechou os olhos. - Naquele dia, atrai o seu filho para uma emboscada e o matei da forma mais sórdida possível. Sabia também das comprinhas de carne bovina para alimentá-lo e apenas acrescentei um produto no alimento que já ficava separado. Quando a esposa o deu para comer, ele veio atrás de mim, como sempre faz... Mas, eu já estava longe. E foi essa a razão para que você o encontrasse junto ao menino já morto por mim, não por ele. Você com toda a sua inteligência acabou acusando quem de fato era inocente - não falou mais nada.
- Então, essa é a razão para que eu achasse que só era apenas uma das feras. Eu cai na armadilha dele perfeitamente.
Novamente, levantando a arma, encostou-a na testa do assassino que ainda tremia. Virando o rosto para não presenciar a cena, pressionou o gatilho e a explosão se ouviu mais abaixo. Ravel estava morto agora.
[ . . . ]
Joaquim, o contador de histórias, fincava enfim sua narrativa da forma mais perfeita possível. Os garotos estavam boquiabertos com todos os acontecimentos citados no decorrer daquele final de tarde.
- E o que aconteceu com Quasímodo e Cláudia, seu Joaquim? - apela um dos meninos.
- Depois da morte do lobisomem, Quasímodo perdeu a capacidade de transformação. Um processo um tanto complicado de se descrever, já que necessitaria de muita biologia pelo meio - ele riu. - Bom, o nosso casal ainda continuou morando nesta cidade até meados de 2002, mas logo se mudou outra vez para sua terra natal. Entretanto, assim que o assassino morreu, nunca mais se ouviu sequer nenhuma morte por tais motivos como se aconteciam antes.
- E o caçador? - perguntou o outro. - Ele ainda continuou perseguindo as feras?
- O Gardel? - olhou para Constantino. - Pensam vocês que depois da descoberta do culpado pela morte do filho ele terminou? Não. Dois dias depois, quando recebeu as condecorações do prefeito reeleito, o Onça, nosso amigo partiu não se sabe para onde. Mas, as notícias que ainda correm pelos jornais é que em suas entrevistas, Gardel prometeu ainda seguir na busca pelos seres das trevas.
- E Salém - disse Constantino -, não pára por aí nas histórias, Joaquim.
- Sim - levantou-se -, tem razão. Outros fatos de aspecto sombrio aconteceram na nossa cidade bem antes destes fatos que acabei de vos narrar, alguns que não cheguei a presenciar. Bom, isso é uma longa conversa para ser iniciada e concluída um outro dia. Logo, vamos nos reencontrar novamente nesse mesmo local.

FINAL.-( POR ENQUANTO)...

Terça-feira, 29 de Julho de 2008

SEDENTO POR SANGUE-V- PARTE- (A PERSEGUIÇÃO!)//ELTON DAS NEVES //CLÁUDIO QUIRINO//DA SÉRIE CONTOS DE SALÉM.


[SALÉM, BAIXADA SANTISTA - 24 horas e 32 minutos]
Àquela hora, um rapaz cambaleava pelos becos menos espaçosos da cidade. Oscilando, uma tontura perpassava sua cabeça, fazendo a cefaléia aumentar gradativamente. O efeito do álcool no seu organismo limpo dissipou a resistência interna das estruturas motoras.Fez um arco na avenida que separava duas ruelas estreitas e percorreu em direção ao bairro menos nobre da cidade. Ao rentar ao beco escuro da panificadora do Maneco, quase na encruzilhada lateral, um vulto negro o assustou, correndo pelos lados mais sombrios do espaço. Um barulho feio o fez retomar o caminho, dessa vez, mais rápido. Andou ainda numa aura de escuridão intensa até chegar no centro duma praça e se deparar com o coreto que se erguia da calçada circular. Olhou adiante. Algo novamente atravessou a rua numa pressa incrível. O rapaz não conseguiu definir precisamente o que vira, mas sabia ser algo ruim.De repente, um barulho atormentador ecoou nas abóbadas das muitas casas, todas fechadas, como se os habitantes temessem os perigos dos acontecimentos recentes. Ele, então, contou os passos lentos e temendo uma nova abordagem, as mãos cerrando o cimento vertical da suspensão, estudava um caminho mais curto para escapatória. A coisa finalmente apareceu um pouco distante. Num sopapo quase invisível, correu em direção ao garoto que não distinguia bem os sentidos. Medo incapacitado dos mais terríveis perigos. O garoto tentou gritar o mais alto que podia, mas nada saiu de sua boca trêmula, os olhos nervosos.Subiu através das escadas para a parte mais superior da praça e agiu com uma coragem inacreditável. Na volta esquerda, tomou um pedaço de madeira no chão e girou no ar, tentando acertar o inimigo num golpe brutal. Uma acústica brusca se ouviu, quando o objeto tiniu no metal de sustentação. A coisa recuara numa posição de defesa. Logo, tentou avançar um pouco, mas a reflexão da vítima foi mais rápida. Dessa vez, acertou em cheio a sua cabeça, fazendo-o oscilar e ir ao chão. Névoa de terra foi levantada pelo arraste repentino.Instintivamente, o rapaz impulsionou os músculos inferiores e pulou ao fundo da praça, ricocheteando pelo paço principal e já se reerguendo para correr, mas foi em vão. O perpetrador havia sido mais ágil que ele.Em segundos, foi arremessado contra parede e logo desmaiou daquele tombo, inconsciente, indefeso.A coisa aproximou-se, ainda tonta, e exibiu os dentes pontiagudos na noite fria. Olhou o céu como se agradecesse pelo prêmio. Numa rapidez inquestionável, rasgou a pele sensível do rosto, serrando até a posição do peito musculoso. Depois, observou enquanto o rapaz se entregava aos espasmos da morte, se debatendo completamente, sem chances de vida. Outra vez, a coisa dilacerou o lado direito da vítima, mas na medida em que levantou-se para seguir caminho viu que não tinha mais saída. Muitas viaturas policiais surgiram de repente pelas várias ruelas da cidade, já cercando o espaço do bosque. As luzes incandescentes o fez ficar de costas para os agentes, entrando ainda mais pelas plantas da praça, tentando esconder-se das investidas iminentes.O delegado Elias Goela apressava-se em ordenar agrupamento dos seus homens em volta do perímetro. Em outra viatura, o prefeito desceu do carona e, em seguida, Rodolfo Gardel, com um mala grande. Um pouco ao lado, outros homens levam mais duas maletas. Lentamente, as mais diversas medidas foram sendo tomadas, enquanto o assassino estava imóvel, agora próximo do corpo inerte do rapaz. Os habitantes logo se assomaram a multidão que se formava, abismados com a cena diante de todos.Na boca ensangüentada do perpetrador, um pedaço de tecido muscular pendia dos dentes. Todos quase conteram um grito de horror. Com uma precisão trabalhada, os policiais já tinham às ordens dadas por Gardel na reunião tática, pois nada podia dar margem a erros. Não hoje.Rapidamente, sem armas, apenas levantaram os escudos de proteção e o inimigo recuou cada vez mais. O espetáculo que todos presenciariam um pouco mais tarde foi alucinante.No centro da praça, Rodolfo Gardel surgiu por entre a multidão perplexa e andou até a proximidade do coreto com a mala em mãos. Atrás duma viatura, apoiaram-se bem os equipamentos, fixou fichas metálicas, e logo preencheu os espaços cavos com uma espécie de balas prateadas que nunca falhariam no corpo do assassino. Precisa, cirúrgica e mortal.Com um grito estridente, avançou para ala principal com a arma numa posição certeira. A coisa recuou, temendo a penetração na carne viva. Quando o primeiro disparo surgiu do cano alargado, jogou-se contra os bancos sucessivos, pressentindo o perigo. As balas penetraram através das plantações ralas do jardim. Um estampido se ouviu, mas, dessa vez, cavou um buraco no cimento impenetrável graças a tamanho impacto. O assassino avançou diante dos olhares apreensivos das pessoas, e saltou sobre Gardel numa ira infernal. No reflexo, serpenteou pelo chão e o atingiu de cheio na perna com uma rasteira quase imprecisa. Com uma pequena faca riscou o rosto da coisa que o dominava, fazendo-o se jogar para o lado, com o rosto minando sangue. Alguns policiais já se preparavam para o abate, mas foram surpreendidos por Rodolfo que apenas recusou com a cabeça. Era entre ele e o outro. Atirou bem no rixo metálico, produzindo um som ensurdecedor próximo daquele que já avançava novamente para surpreendê-lo.Dessa vez, rotacionou o armamento reluzente, dando-lhe mais um novo aspecto formal. Com um salto até a sacada central, alvejou a mira do reajustador e segurou o gatilho. Todos foram testemunhas quando a luz se expandiu no ar. Prevendo os resultados, o assassino partiu para as viaturas quando Gardel pressionou a protuberância fazendo a esfera riscar o ar, num chiado esquisito. Antes de atingir o solo, o objeto girou em torno de si mesmo, lançando fiapos pontiagudos cheios de mercúrio por todas as proximidades. Uma luz forte explodiu acima deles enquanto o processo se fez para incandear à visão do inimigo. Muitas pessoas foram ao chão quando sentiram a carne ser penetrada pelos visgos. Gardel não imaginava que seria tão rápido assim, a ponto de ter uma posição desprivilegiada em vista. O homem era mesmo inteligente.Como um presságio terrível, gritou para que socorressem os infectados pelo produto químico usando uma mistura que estava na outra maleta.Dessa vez, um ódio mortal fervilhou seu sangue. Dessa vez, estava um tanto certo de que não erraria de novo. Mas, com a falha da sua ação, a coisa já sumia próximo à avenida. [ . . . ]O perpetrador corria pela avenida em direção ao espaço menos cheio de movimento. Parecia que estava preste a voar, com tamanha pressa de fuga. Um pouco longe ainda, duas viaturas policiais o seguiam numa tentativa de captura. Os automóveis serpenteavam pela rua estreita já se aproximando. Uma chuva de balas foi lançada, fazendo o assassino se jogar para o lado e caindo sobre todo o lixo de escanteio. As balas zarparam pelas laterais da esquina quase o acertando na coxa. Mais uma vez, uma saraivada riscou o espaço tinindo direto na parede às costas, quando foi para o lado. Entrou num beco minúsculo que ia direto ao bosque. Tinha muito mais segurança e os policiais não mais o encontrariam, graças à infinidade de esconderijos secretos que conhecia. Não ouviu mais o barulho do motor. Estava longe do alvo deles, até de Gardel com sua estúpida investida sem sucesso.Quando, adentrou mais pela mata seguindo o caminho que levaria ao córrego municipal, ele parou subitamente. Do outro lado, uma criatura da mesma semelhança o fitava com sede de vingança. Uivou muito alto para a grande lua cheia bem acima, mas o ser a sua frente retribuiu o mesmo gesto que ambos conheciam naquela determinada situação. Finalmente, estavam frente a frente. Dois lobisomens lutariam por uma verdade que só chegaria com o fim preciso do mais fraco deles.
CONTINUAÇÃO- (AGUARDE O CAPÍTULO FINAL)...


A primeira imagem no centro superior da tela, é do ator brasileiro Thiago Gagliasso-Rio de Janeiro-09/06/89-atualmente trabalha na rede Record de televisão.







Segunda-feira, 28 de Julho de 2008

SEDENTO POR SANGUE – (AS INFORMAÇÕES IV-PARTE)//ELTON DAS NEVES//CLÁUDIO QUIRINO//DA SÉRIE CONTOS DE SALÉM.





O prefeito Justino parecia que ia sofrer de um ataque cardíaco de tanto nervosismo. De início, limitou-se a encarar o homem a sua frente, com uma expressão ameaçadora. Depois, não dando a entender muito bem a sua ação posterior, andou até a ala direita, próximo às estantes e se encaminhou até a porta. Interpretando mal a situação, Gardel suou frio quando percebeu que o velho trancou a porta, dando voltas na chave.
Em seguida, ainda sem tirar os olhos cinzentos, caminhou até a mesa novamente e deixou a sua mão ocultar-se na protuberância inferior. Ao levantá-la novamente, uma arma reluzia. Logo, o alvo principal foi bem marcado. O forasteiro empalideceu de imediato.
- E então, Gardel - aproximou-se. - Como pretende explicar tudo que está nesses arquivos? Pensando na possibilidade de inventar algo bem convincente?
- Como pode acreditar nisso? - gaguejou, sem entender. - Nunca nem tinha vindo para Salém antes. Estou aqui apenas para ajudar a prender o assassino.
- Ajudar? - inquiriu o homem. - Até quando pretende negar seu farrapo de culpa nisso? Pretende dizer que isso não passa de um absurdo, ou que há alguma coisa errada. Bandidos sempre negam suas origens. 12 pessoas já foram mortas e não permitirei que essa estatística aumente ainda mais, vindo a atingir minha campanha política, mas também não só por isso...
- Não! - apelou para o bom senso. - Claro que isso acontecerá. Mas, de uma vez por todas, estou aqui para ajudá-lo nas buscas, e não para ser visto como um suspeito pelos assassinatos. Será que não consegue enxergar a verdade?
- Uma verdade que apenas você pode confessar, Gardel. Só colaborar. Por enquanto, até segunda ordem, Quasímodo é acusado, mas depois dessas provas, tudo vai mudar - pegou o telefone e começou a discar um número. - Alguém vai gostar de saber que já temos mais um amigo disposto a confessar seus crimes.
Percebendo que deveria arriscar e dizer finalmente ao prefeito o que sabia sobre os acontecimentos, hesitou um pouco, mas logo começou a contar a assombrosa realidade.
- É bom sentar, prefeito, pois o que tenho a dizer não é agradável - semicerrou as pálpebras. - Há um bom tempo já conheço Quasímodo. Bem, tudo começou em uma noite, quando ainda residia em Vicência e conheci o casal por lá também. Eram novos na cidade. De uma mesma forma, logo quando chegaram, os mais tenebrosos acontecimentos se sucederam. Os fatos foram noticiados pela mídia como um pipoco de informações cada vez mais confusas. Nessa história, dez pessoas foram brutalmente trucidadas da mesma forma... A garganta dilacerada. Com isso, pensa que encontraram o culpado? Nunca!
- Sei... - abreviou. - Onde Quasímodo entra nessa história que eu não entendi perfeitamente. As notícias foram conhecidas aqui também.
- Por que uma dessas vítimas - baixou a cabeça, inconformado -, era o meu filho de apenas 18 anos: Eric. Tínhamos brigado aquela noite e, ele saiu de casa sem rumo. Logo, quase num desespero, tentei contactá-lo de todas as formas, mas soube que estava na casa da tia. Bem cedo, recebi o telefonema informando do desaparecimento dele. Andei por todos os lugares em que ele mais freqüentava, liguei para amigos, mas nada! - o prefeito baixou a arma. - Quando o encontrei, bem próximo ao lago, estava nas terríveis condições que se podia imaginar. Todo ensangüentado... Quasímodo estava próximo dele, com as mãos e os dentes vermelhos. Como já disse, nada é o que parece, prefeito. Algo animal...
- Não, Gardel - hesitou. - O homem é o animal mais irracional, capaz de cometer as maiores atrocidades possíveis. Mas, não me convenceu de sua falta de culpa. Você mentiu. Enganou a guarda municipal, sabendo que estava nas dependências externas da cidade. O que faz em Salém?
Por um breve tempo, houve um longo silêncio tumular entre ambos, tão profundo que deu a impressão que tanto um como o outro podia ouvir as suas próprias batidas cardíacas. Um olhar incrédulo de Justino Onça se confrontava com o de Gardel.
-Sei que isso cheira à loucura... - disse, cabisbaixo. - Vai até parecer ao senhor que sou um forasteiro que sofre de suas faculdades mentais e é isso que eu estava temendo que pensasse de mim, sendo essa uma razão pela qual relutei e dei tantas voltas antes de lhe contar o que sei sobre a identidade do assassino voraz.
-Espero que o que tenha a dizer seja convincente. Vamos! Não tenho todo o tempo do mundo para apenas dar-lhe tamanha excelência.
Sob o olhar bem curioso do prefeito de Salém, Gardel abre sua maleta confeccionada de puro e legítimo couro, que sempre trazia consigo seja para onde fosse. Hesitando, retira uma foto à qual entrega para Justino Onça. O homem pareceu sucumbir, mas não completamente.
- Este casal da foto é o que se mudou recentemente para Salém. Eles fixaram residência num sobrado chiquíssimo nas proximidades do centro comercial, aparentando ser de origem e condição abastada. Esse daqui é o Quasímodo. Mas o que faz com um retrato dos dois? - Justino outra vez o encarou. - Você já os conhecia mesmo...
- Simplesmente este casal de beleza incomum, guardam um grande segredo ainda desconhecido... Uma verdade que somente eu e algumas pouquíssimas pessoas, que se envolveram com ele a conhece. Cláudia ainda não atentou mais para minha curiosidade. Não parece ter nada a ver com esses crimes do marido. Sua culpabilidade é negativa na minha opinião, que sempre tenho observado de perto todas as suas ações.
- Pois bem - aguçou o prefeito. - E que segredo é esse?
- Antes de tudo, para que entenda todo enredo desta estória sombria, que esta envolvida por tal segredo que estou para lhe contar, devo-lhe aguçar a memória para acontecimentos semelhantes aos que ocorreram aqui, noutra cidade do litoral santista. Dê uma olhada nisso - Gardel o inquire, pegando uns recortes de jornais antigos dentro da maleta.
As matérias foram destacadas do principal e mais importante jornal da baixada santista, denominado a “Tribuna”. Extremamente curioso pelo conteúdo informativo dos papéis, Justino apanha um, depois outro, e mais outros ainda. Lendo as manchetes individualmente, foi observando atentamente as fotos de vítimas trucidadas da mesma forma que os mortos de Salém. Tais papéis desfilavam consecutivamente nas suas pálidas mãos suadas pelo nervosismo e ansiedade que o envolvia.
Resolve, então, ler atentamente o texto de algumas, o que leva alguns demorados minutos. Após achar que já leu o bastante, Justino respira fundo, reencostando na confortável cadeira tripé. Sem saber proceder de início, apenas olhava a sua fotografia na parede obtusa.
- Estou lembrado dos acontecimentos - finalmente disse. - Tais fatos ocorreram há quatro meses atrás, em São Vicente, cidade vizinha à nossa, onde houve casos parecidos com os que estão ocorrendo aqui. Mas, quem me garante que você também não esteve lá na época?
- Sim, eu estava em São Vicente quando as vítimas apareceram pelas manhãs alternadas. Caso queira se aprofundar mais no assunto, basta apenas pesquisar no censo que verá que Quasímodo e Cláudia também residiam no período considerado. Logo que a mídia passou a pipocar as informações, em massa, apelando junto com as autoridades policiais na busca do culpado, os crimes cessaram... Quando o casal foi embora. Eu ainda fiquei por mais três dias, tentando encontrar o paradeiro do novo lugar onde estariam, mas não foi tão simples assim, como imaginei.
- E toda essa perseguição toda seria para vingar a morte de seu filho, Gardel? Em partes, concordo plenamente...
- Exatamente, mas esse não é o único motivo - franziu o cenho. - Eu acompanhei o caso de perto. Aliás, eu fui chamado àquela cidade pelo próprio prefeito para ajudar nas buscas.
- Chamado? O senhor é alguma espécie de policial? Um detetive espião ou investigador?
-Não em absoluto! Na verdade, eu sou médico e cientista formado em química e biologia. Tenho aptidão para metafísica, que como o senhor bem sabe, é a parte da filosofia que estuda a essência dos seres vivos. As ciências ocultas também interessam, e unindo o conhecimento delas com à metafísica, sei que existem seres que vivem tanto regido pela luz da divina graça de Deus como fora dela.
-Vamos dizer que eu me esforce para crer em tais coisas, Gardel, ainda o ponho como suspeito, uma vez que mentiu sobre sua chegada aqui.
Dirigindo a Gardel um olhar desconfiado como se tivesse diante de si um homem perturbado que acabara de fugir do hospício, duvidava de sua sanidade mental. Tudo parecia absurdo.
- Baseado em quê convictamente me afirmar que o jovem Quasímodo é o assassino? - apelou para persuasão.
- Em minhas investigações, pude apurar que, há sete meses atrás, na cidade do Guarujá, lugar de nascimento do casal em questão, ocorreu um misterioso ataque há um acampamento formado por seis jovens. O mais estranho é que quatro deles foram brutalmente assassinados da mesma maneira. Os pescoços foram dilacerados como se formasse uma espécie de figura na pele das vítimas, ainda não identificável. É hoje o mistério mais aterrorizante da cidade - fez uma pausa. - Bem, os dois sobreviventes do ataque nem mais preciso dizer não é?
- Quasímodo e Cláudia? - O velho ficou lívido.
- Perfeitamente! Não acha muito estranho que apenas os dois tenham sobrevivido à chacina do acampamento? Mais tarde, foi comprovado em inquérito que, Quasímodo, no ato da fuga, se espatifou muito feio nas farpas de madeira e acabou ferindo o lombo próximo à cabeça. Pelos autos médicos, ele foi ao hospital tratar do sangramento. O doutor que o atendeu de prontidão confirmou o resultado dos ferimentos.
- Então... - Justino gaguejou. - É essa a razão do tal homem sempre se vestir de maneira estranha. Por incrível que isso pode parecer, anda com camisas com a gola superior mais elevada... para esconder a lesão no lombo. Já tinha percebido antes, mas nunca dei devida atenção, até porque não tínhamos ainda provas contra Quasímodo.
- Os documentos policiais atestaram marcas de dentes nos pescoços das vítimas. Todas feitas pela mesma arcada dentária. Se ele mesmo fosse mais uma vítima, o médico não encontraria fiapos de madeiras no lombo e, por isso, a versão contraditória acabou por fazer dele também um suspeito, mas não tinham provas para acusá-lo. Ou seja, ele sumiu, as mortes daquela forma acabaram.
O prefeito parecia cada vez mais confuso com todas as observações. Com um telefonema para as delegacias regionais, todos os inquéritos o desafiavam, como Gardel havia dito anteriormente. Tudo pendia para o tal Quasímodo. A questão era a falta de evidências exatas.
- Tudo bem, Rodolfo Gardel. Parece que você está mesmo correto.
- Tenho posse de todos os detalhes, quando encontrei, numa dessas perseguições, o diário de Quasímodo, onde ele relata minuciosamente o ataque sangrento no acampamento. Uma forma bem subjetiva de prova para ser mais exato. É melhor sentar-se, pois essas descrições não são nada agradáveis de se ler.
- O senhor tem tal diário consigo? - perguntou Justino, apreensivo.
-Sim, aqui estão as anotações - Gardel apanha de cima da mesa mais uma vez sua maleta de couro marrom, abre-a, e apanha um pequeno diário de capa de veludo negro.
Apanhando o pequeno caderno, com extrema curiosidade e interesse, o prefeito abre suas páginas iniciando uma leitura de reconhecimento das informações diante dele. Por longos minutos, apenas permanece a olhar sem proferir uma palavra. Entretanto, Gardel sabia que as páginas bem mais assombrosas estariam mais próximas.
Folheando um pouco mais, Justino logo viu as paredes se fecharem em sua volta, esmagando todas as suas dúvidas. "Quasímodo é o culpado pelos assassinatos". Rapidamente, com os olhos aflitos, leu as palavras naquela folha amarelada, sem ainda acreditar no que estava vendo.
Novamente, revirou algumas páginas e se deparou com uma fotografia. Era aquilo que Gardel queria que ele visse no momento tão extremo. A verdade, agora, seria então descoberta... Sem mais arrodeios. Olhou mais uma vez para a imagem, outra vez, e outra. Um homem nas mais terríveis condições, com a boca ensangüentada, econstava-se de uma moça no chão, com o abdômen estripado, deixando alguns órgãos mais internos à mostra. O prefeito virou o rosto, cambaleando. Numa atitude impensada, deixou cair à arma sobre a mesa, trêmulo. Quando deu uma olhada no lombo do homem na fotografia, percebeu a cicatriz por volta da cabeça.
Aquela moça ele conhecia muito, muito bem. Levantou-se de imediato, sentindo a sala girar numa ação centrípeta. Quase foi ao chão, mas Gardel o amparou com os braços.
- Desgraçado! - estava tremendo como vara verde. - Então, ele quem matou a minha sobrinha! Durante esse tempo todo, esteve impune dos crimes, mas agora tudo se perdeu para esse infeliz.
Pegou o telefone outra vez, apertou o ramal da recepção e ditou uma ordem. "Ravel, venha a minha sala imediatamente!" Em questão de uns segundos, o assistente entra no espaço, logo parando ao ver Gardel o encarando. Com passos lentos, recua um pouco em direção oposta, e vai até o prefeito sem tirar o olhos do forasteiro.
- Leve tudo isso até a delegacia, agora! Mas, antes gostaríamos de ter uma informação sua. - Ravel empalideceu. -Onde conseguiu isso aqui?


- Senhor prefeito, essas informações são sigilosas. Não posso opinar se um estranho também está na sala. As fontes são verdadeiras...
- Não está aqui para contestar, apenas diga onde os encontrou? - ele gritou para o assistente que olhava a arma na mesa. - Diga!
- O senhor sabe que Quasímodo deu novo depoimento na delegacia? - o velho não assentiu. - Então, prefeito, as fontes foram repassadas na gerência municipal de acusações. O próprio Quasímodo denunciou seu Gardel - o forasteiro pendeu, inquieto na cadeira.
- O quê? Quasímodo disse que eu assassinei aquelas pessoas? Isso é um crime, ainda mais porque falseou informações e documentos. Sabe do verdadeiro fato, prefeito Justino. Cabe ao senhor tomar as medidas necessárias à segurança de sua cidade, junto com o delegado Elias. Há uma oportunidade hoje à noite! - assentiu o velho. - Devemos estar a postos para capturar o culpado. Eu mesmo ajudarei no que precisar.
- Tem razão! De hoje Quasímodo não nos escapa - virou-se para o seu assistente que aguardava segundas ordens. - Ravel, faça comunicação com o delegado e mande-o vir aqui, imediatamente! Diga que já temos as provas que ele necessita.
Outra vez, fitou a imagem assustadora diante dele. Por uma brevidade de tempo, os olhos umedeceram enquanto observava a sobrinha com um oco no estômago. "Aqui, ele fugiu do padrão. Não atacou o pescoço de Mariana", pensava na situação incompreensível que finalmente seria posta em pratos limpos para toda a cidade de Salém.
A noite apenas estaria começando, caso ainda não soubesse.

CONTINUAÇÃO...





Quinta-feira, 24 de Julho de 2008

SEDENTO POR SANGUE!-III PARTE-(OS ARQUIVOS!)//ELTON DAS NEVES//CLÁUDIO QUIRINO//DA SÉRIE CONTOS DE SALÉM.





As olvidações perpetravam mais que sonoras nos ouvidos dos garotos extasiados com tanto mistério. Nos íntimos, um pequeno farrapo de curiosidade ainda pairava no ar. Certamente, a chegada do homem das grandes bagagens atiçou a complexidade imaginária dos presentes.
Entretanto, Joaquim prosseguia, adentrando ainda mais na aura sombria da sua narrativa:
- O prefeito estava uma pilha dos nervos, devido aos acontecimentos recentes que envolviam as mortes funestas dos seus munícipes, e toda sociedade saleziana cobrava de sua parte e das autoridades, medidas drásticas que pudessem dar fim àqueles crimes atrozes - Joaquim se perdeu, olhando para o horizonte visto através da porta principal.
- Ele não estava muito contente em receber o forasteiro que fora anunciado dizendo que precisava falar-lhe urgentemente. Tinha problemas demais para se preocupar com conversas alheias, que não o disessem respeito ou importância.
- Mas como era um período de campanha para eleições municipais, e logicamente pelo fato de ansiar uma reeleição - Constantino fez uma pausa lógica -, era bom receber e tratar bem a todos, até mesmo um forasteiro, alguém estranho de quem não soubesse procedência. Aliás, tinha todas as razões, pois a cidade estava sendo assolada por mortes causadas por algo sanguinário. Todo político sempre quer mostrar bom trabalho nesse período, mas, a única diferença é que para Justino Onça aquilo não foi tão fácil como todos imaginavam. Os maus tempos ainda estavam por vir.
- É certo que tais acontecimentos se iniciaram quando aquele casal fixou residência em Salém, mas temos de ter consciência de que, nessa cidade, desde a sua fundação, os fatos mais cabulosos já aconteciam. Nisso, Constantino, terás que concordar comigo - O homem assentiu. Quem não lembra dos vários chicoteios que se ouviam riscando as ruas, da bola incandescente que percorria quase toda a cidade nos mais movimentados horários da noite. Até hoje me recordo do dia em que eu caminhava pelo calçadão, voltando para casa, quando a grande nuvem negra passou ao longe. Nunca pensei que teria tanto medo na vida.
Como se lembrasse daquele terrível dia, tentou esquecer, não fugindo do contexto. Então, Joaquim continuou:
- Justino Onça ficou estupefato quando o forasteiro disse que sabia a razão e quem estava por de trás daqueles assassinatos que, segundo contas da policia local, já eram doze vítimas. Suando às bicas, e vendo uma luz no fim do túnel, melhor dizendo, uma opinião que poderia lhe trazer um alento para a campanha de reeleição já que seus adversários políticos o estava atacando por todos os lados, cobrando resoluções e medidas que solucionassem o caso, ele resolveu escutá-lo com calma. A imprensa local, como sempre se antecipando, já houvera batizado de "Crimes da Besta Fera" - Todos riram ao mesmo tempo, inclusive ele. - O prefeito quase foi às lagrimas. A visita inoportuna havia transformado o estranho a sua frente em possível salvador da pátria... Um messias, muitíssimo esperado, que pudesse lhe trazer a redenção política.
Com isso, apertando as mãos suadas e pálidas pela ansiedade por querer saber logo o conteúdo destas informações preciosas, Justino Onça lhe pergunta:


- Então, senhor Rodolfo Gardel, é esse o seu nome, não? - Devia estar a ponto de ter um colapso de tanto nervosismo. - Por favor, diga logo o que sabe sobre quem está por de trás destes crimes hediondos. Sabe que, em virtude das mortes, todos de Salém, além de mim, já estamos há algumas semanas sem pregar os olhos direito?
Olhando atentamente todo o quadro comportamental do prefeito, seu suadouro, o tremor de suas mãos e do corpo todo, a fala apressada e nervosa, suas mãos pálidas e que suavam frias, enfim, tal estado que se pintou a sua frente, lhe mostrara que a principal autoridade daquela cidade estava com os nervos em frangalhos. Também era muito normal naquelas condições, graças às fortes pressões psicológica e emocional que lhe foram exercidas. Ao diagnosticar surto caótico, Rodolfo Gardel logo percebeu que a missão seria mais difícil do que pensara. O prefeito sucumbia a explicações sensatas.
Estava ávido por respostas dos fatos que pairavam sobre a cidade que tinha de gerir como seu principal líder político. Estava longe de ser algo simples para falar para alguém, principalmente para aquele mandatário em questão, que estava andando numa corda bamba.
Por mais misteriosas que fossem tais mortes, sempre se esperava uma explicação lógica e, dentro dos parâmetros que seriam considerados normais, em termos dos acontecimentos ocorridos, as investigações tétricas deveria prevalecer na dedução do suspeito. Mas, todas as informações que Gardel tinha a dar, estavam longe desses parâmetros normais esperados, e fornecê-los ao prefeito naquele estado de nervos calamitoso era uma missão ingrata. O homem temia que, ao ouvi-las, o gestor principal o tomaria como um louco, insano, que não tinha mais nada de útil para fazer.
Certamente, acharia que resolvera matar o seu tempo indo à prefeitura pregar uma peça nele, vindo brincar com algo tão sério que envolvia seu destino político e o que era pior, com vidas humanas. Apesar dos seus temores, Rodolfo Gardel sabia que se chegara até ali, não poderia, de forma alguma, recuar diante da investida. Além do que, sempre fora um homem com um talento raro: a persuasão. Tinha certa facilidade em convencer as pessoas a acreditarem em coisas que, para elas, era muito difícil crer, ou incutir-lhes idéias que antes não estavam lá, em suas cabeças.
Tinha de persuadir o prefeito a acreditar, naquele momento, no que tentava se referir, ou seja, o verdadeiro assassino, um homem que ele conhecia muito bem. De qualquer forma, teria que vencer mais aquele desafio em sua vida incomum e cheia de aventuras sensacionais e desafios perigosos, de natureza dificílima, para qualquer outro homem se confrontar. Logicamente, não para ele que certamente se tratava de alguém incomum, com habilidades especiais.
Por isso, depois daquela avaliação mental sobre o estado de nervos do prefeito e das dificuldades que poderia enfrentar em relação à reação de Justino Onça, ao que tinha de lhe dizer, Gardel se livra dum pigarro em sua garganta, sinal este que demonstrava um nervosismo seu. Não lhe restou outra alternativa, a não ser a franqueza.


-Senhor prefeito, o que tenho a contar-lhe não é tão simples. Para ser mais sincero, se trata de algo bastante delicado. Tenho explicações à respeito de quem está por trás destes crimes atrozes - Olhou-o com o cenho franzido, tentando estudar uma possibilidade. - Só não sei bem se o senhor ou qualquer outra pessoa chamaria de normal ou aceitável.
- Tudo bem - enevoou o pensamento. - O que tem de tão anormal ou inaceitável nestas mortes? De quem suspeita? Eu só quero saber quem é o responsável por tais atrocidades para colocá-lo atrás das grades... Preciso dar um fim nisso! A situação é incômoda pra toda minha cidade e pra mim. Basta! Já foi longe demais - aproximou-se de Gardel. - Caso tenha algo importante, por favor, acabe com esse sofrimento...
Olhando fixamente para Justino Onça, que já tinha sua cara lavada e sua roupa ensopada pelo tanto suor, Gardel prossegue:
- O que sabem destas funestas mortes? Quais as informações que tem das investigações da policia local? - O prefeito aquietou-se.
- Bom... - semicerrou as pálpebras. - Até mesmo os investigadores da policia parecem um pouco confusos. A perícia realizada nas marcas dos pescoços dilacerados das vitimas seria de arcada dentária superior. As possíveis pistas nos locais dos assassinatos evaporaram, apenas sangue coagulado, sem nenhuma digital que ajude. Nada! Então, nos obrigamos a questionar: Quem seria capaz de rasgar o pescoço da vítima para se alimentar do seu sangue?
- Vocês, autoridades da cidade, segundo as investigações baseadas na perícia policial trabalham na hipótese de que alguém esteja por trás da autoria destes crimes, estou certo? - Questionou, impassível.
- Absolutamente! Que diabos de ser humano se alimenta com sangue? Não vejo nenhum índice estranho nessas investigações. Sem pistas ou evidências, tudo se complica, Gardel. Mas, percebo que você parece um tanto apreensivo... O que queria me dizer?
- Como disse, não é assim tão simples, prefeito. Para falar a verdade, eu mesmo deveria ver algumas imagens das vítimas para diagnosticar um resultado mais preciso. Foi apenas uma suposição... Apenas uma simples dedução.
Pegando um lenço branco bordado de seu bolso e o levando à testa e ao rosto para enxugar o suor que escorria pela face pálida, após ter percebido alguma coisa estranha no homem, Justino Onça, com o olhar cansado pelo abalo que toda aquela situação apenas respondeu:
- Bom, devemos crer num serial killer como nos livros do Stephen King? Essa é a opinião de alguns idiotas da polícia, se bem sabem que quase não há assassinatos na cidade - levantou-se a andou até uma estante. - Vou lhe mostrar os arquivos mais recentes que recebemos por esses dias, pois os outros estão em posse do delegado.
Minutos depois, trouxe umas caixas etiquetadas por números. Com uma jactância nervosa, abriu-as e espalhou os papéis do caso sobre a mesa de junco amarronzada. Com o indicador reto, mostrou-lhe os que mais o interessariam.
Gardel sabia que os seus métodos prevaleceriam até então, mas não estava preparado para o que viu logo na primeira página do processo do arquivo. Trêmulo, olhou para o prefeito, sem saber o que dizer logo no início. Rapidamente, foi passando as folhas, sentindo as paredes se fecharem sobre ele. Teria uma longa caminhada pela frente, pelo visto.
- Prefeito, pelo que vejo aqui, os peritos têm uma conclusão parcial sobre o suspeito pelo crime. Um homem chamado Quasímodo?
- Sim - ele assentiu.- É um homem estranho que fixou residência com a esposa aqui, na cidade. Os tais acontecimentos iniciaram-se depois da chegada dramática dos dois. O Quasímodo é meio anti-social. Hora ou outra, o pegamos perambulando sozinho pela madrugada. Não temos provas concretas ainda, mas é uma suspeita grande. Ele parece ter um comportamento doentio, capaz quem sabe de fazer algo estranho.
- Isso não o faz indiciado a ser um suspeito principal da acusação.
- Tem razão - o prefeito balbuciou. - Mas, as evidências o faz. Sabe por que digo isso? Não achas estranho que nos dias dos assassinatos, ele sempre é encontrado em condições medonhas nas proximidades das ruas? Sujo, imundo. Uma vez, estava com sangue na camisa. Depois de vários interrogatórios, a polícia nada pôde fazer ainda por falta de mais evidências. Na verdade, caso ocorra o próximo, o delegado já informou que não vai dar trégua ao tal Quasímodo. Vai direto para prisão!
- Mais algumas observações policiais? - indagou Gardel, confuso. - Não é possível! E o sangue na camisa?
- Foram feitos todos os exames possíveis de DNA, sendo testados por muitas vezes para serem confirmados pelos legistas. O resultado era o mesmo. Nenhum atestou ser das vítimas assassinadas. Por isso que a polícia ainda não pôde prendê-lo, entende? Sendo ele ou não, é muito esperto. O crime é mesmo de uma perfeição voluntária.
- O sangue não era de nenhuma das vítimas? - Gardel se perdeu na própria questão, quase tonto com as informações.
- De nenhuma delas, amigo! Como disse, foram feitas várias análises seguidas, mas nada acusou. Estranho, não acha? Temos um assassino solto pelas ruas de nossa cidade, transitando de noite, à espreita dum munícipe incauto para fazer dele sua vítima. Resta-nos saber agora de quem se trata, ou seja, será que é mesmo Quasímodo?
-Bom - coçou a cabeça. - As explicações são bastante plausível, vindo dentro da lógica construída daquilo que as pessoas acreditam, não é mesmo? Também concordo. Mas, não acha estranho observar essas marcas deturpando a pela do pescoço? Repare nessas perfurações ao redor do tecido membranoso. Um homem qualquer não poderia fazer um estrago desses com os dentes. É algo mais acurado.
- Do que está falando? - o prefeito meneou a cabeça. - Há uma outra possibilidade que gostaria de tratar com o senhor, já que tocou nesse assunto tão complicado. A polícia tem uma outra suposição bem maciça sobre os casos, se é que consegue me entender...
- O quê? - Apelou antecipadamente. - Um animal com arcada dentária mais desenvolvida que a humana? É isso que quer dizer, prefeito?
O homem o olhou com seriedade. Levantou-se, passando a mão sobre o rosto atordoado. Novamente, andou até a estante e pegou outros papéis numa pasta separada das caixas. Jogou-as sobre a mesa com vistas ocultas no papel de seda. Gardel, com as mãos minando, abriu o novo processo e viu que estava perdido.

- Não, Gardel - o prefeito hesitou, andando até ele. - Queria referir-me a isso. Algo em você me deixa encabulado. Você veio de outro lugar, com objetivo de ajudar na captura do assassino. Entretanto, está se mostrando muito mais difícil de se entender, não é? Bem como pensei no início... Você deve ser mesmo um louco!
- Pode me explicar o que é isso aqui? - Sentiu o mundo girar ao redor.
- Sim, faço questão - riu o homem. - Aqui está tudo que queria saber sobre você, Gardel. O mais antigo morador escondido de Salém, pelo que consta aí. Residente das dependências externas. Que engraçado! Não há nada que meu fiel secretário Ravel Justino não descubra sobre os recém chegados, antecipadamente. Considere um pequeno fato: aqui, todos se conhecem. Logo, achariam estranho uma pessoa chegar sem darmos as boas-vindas, não é?
Quase gaguejando, sem entender como aquilo foi parar nas mãos do tal prefeito, Gardel sabia que seria uma batalha difícil a enfrentar a partir de agora.

CONTINUAÇÃO...






















Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

" SEDENTO POR SANGUE"!- PARTE II-( O MESTRE DA CONVERSA FIADA)//ELTON DAS NEVES//CLÁUDIO QUIRINO//DA SÉRIE CONTOS DE SALÉM.




Já eram dez horas da manhã na pequena cidade de Salém**, situada no litoral sul do estado de São Paulo, precisamente na baixada santista. Seu Joaquim, um senhor aposentado dos seus sessenta anos, havia chegado, como era do seu habitual costume, a encostar-se no balcão da panificadora do Maneco. O local degustativo das maiores delícias da cidade, onde turistas esfomeados estonteavam-se com tantas iguarias. Como sempre, solicitou à simpática atendente, Anita, que lhe servisse aquele costumeiro café com leite de todo santo dia. Aquiescendo seu pedido, a moça o fez normalmente, servindo-o com um sorriso branco de grande satisfação.
Seu Joaquim, além de figura muito esguia - característica essa que é muito típica da gente simples do litoral santista -, era muito querido e conhecido nas redondezas, principalmente por aqueles que gostavam de freqüentar a panificadora, e que apreciavam ouvir suas estórias de cunho fantástico. Alguns amigos seus - e por justiça eu vos digo que não eram todos, mais uma minoria -, por pura inveja da fama e carisma que tais estórias o deram, o apelidaram de "Mestre da conversa fiada". Essas competições nunca o alienaram a satisfação do mérito jocoso, mas, acostumado às investidas, apenas contentava-se a olhá-los com inquisição, os olhos enevoados na qual nem mesmo psicólogos podiam definir sua personalidade no momento.
Querendo assim desvalorizar a originalidade das estórias, que sempre contava como se elas fossem verídicas, e por conseqüência deste ato negativo, os invejosos queriam tirar-lhe a total credibilidade diante dos seus ouvintes, coisa que eles não conseguiam, pois pouco importava para toda aquela gente e não era pouca em número, mas eram muitos, se eram mesmo reais, ou não. A curiosidade e atenção dos ouvintes serviam como uma forma singela de entremear os fatos que contava com tamanha astúcia e sordidez. E quando se limitavam, alguns, em questioná-lo sobre provas, ele apenas fingia não dar ouvidos aos itens desnecessários que corrompessem seu raciocínio.
Joaquim demonstrava segurança e talento como contador de estórias. Na sua opinião, o que valia mesmo era a diversão momentânea. Pelo menos, por hora, os coitados se esqueciam dos problemas que aturdiam os pensamentos turbilhantes. Então, se alguns destes tais "amigos" o chamavam pela nova denominação constrangedora, a outra parte, mais complacente, formada por uma infinidade de jovens da nova geração, defendia-no, respondendo aos infortúnios dos maldizentes:
- Qual nada, o seu Joaquim está longe de ser um criador ou puxador de conversa fiada, ele é sim o nosso Forrest Gump litorâneo.
Aqueles que ali se encontravam quando o velho chegou, como sempre eram em número razoável, já se achegavam perto do ponto do balcão em que estava encostado. De início, alguém entre eles já o provocou.
- Então, seu Joaquim? Qual a nova estória de hoje? Conte-nos uma para começarmos bem o dia, que tal?
- Não, Joaquim, poupe-nos de mais uma conversa fiada sua - pigarreou Alexandre Constantino, com uma careta simbólica de insatisfação.
De súbito, e isso o velho Constantino não esperava, o enorme grupo de pessoas que já começava a se aglomerar em torno dele e de Joaquim, ao lhe ouvirem falar assim, lhe deram uma sonora vaia que fez estremecer os recônditos mais secretos de sua alma. Sorrindo pelo canto da boca, e envaidecido pela reação contrária dos seus ouvintes admiradores de suas prosas de fundo fantástico, pela implicância gratuita de seu velho e rancoroso amigo, Joaquim estimulado por tal apoio e pela massagem no ego que isso sempre lhe provocava, ajeitou-se no largo banco.
Alisando com uma das mãos o cavanhaque grisalho, que era encimado por um vasto bigode igualmente embranquecido, Joaquim então inicia a narração de mais uma estória nova, a estória do dia, daquele dia.
Contou-lhes a mais assombrosa delas, que fazia muitas pessoas ainda encolher, sentadas no chão, relembrando todo o terror que chocou os quatro cantos escondidos da pequena cidade. Um fato praticamente desconhecido pela ausência misteriosa de informações, o tempo em que Salém imergiu nas trevas demoníacas por completo.

- Há dez anos atrás, apareceram aqui, por estas redondezas, um jovem casal, ambos eram quase da mesma idade e deviam seguir a facetaria dos vinte e cinco anos. Ela, uma linda loira de cabelos encaracolados e um vivo par de olhos verdes grandes e cintilantes. Atendia pelo nome de Cláudia. Ele, era um rapaz de aspecto altivo, deveria medir mais ou menos 1 metro e 90, olhos negros como o breu, que transmitiam um olhar frio e enérgico, seus cabelos eram extraordinariamente negros e ondulavam em volta das orelhas e nuca. Seu nome, se não me falha a memória, era Quasímodo. Ambos eram de uma beleza indescritível. Alugaram um sobrado de portentoso e majestoso aspecto, próximo ao centro de Salém, mostrando-nos, assim, que eram gentes de posses.
Mas, desde que se mudaram para cá, a nossa cidadezinha nunca mais foi a mesma...
- Por que, seu Joaquim? - perguntou-lhe um rapazote dos seus quinze anos, de pele negra e olhos esbugalhados de tanto atento.
Aliás, toda aquela gente em roda de seu Joaquim, inclusive seu velho e rabugento amigo, Alfredo Constantino, o ouviam no exato momento em que iniciava sua conversa, com a máxima atenção. Trêmulo, não pôde esconder o espanto na expressão. Os pêlos estavam todos arrepiados.
Olhando com o canto dos olhos o jovem rapaz negro que o interpelara, Joaquim, que se aborrecia por certos cortes dos impacientes ouvintes com perguntas que logo seriam sanadas, o ignorou e prosseguiu dando continuidade ao enredo que estava a discorrer com precisão detalhista.
- Bom, como eu estava dizendo, desde que chegaram a Salém, nossa cidade não foi mais a mesma, pois os mais estranhos acontecimentos começaram a se desenrolar por estas redondezas, abalando os pouco mais de vinte mil habitantes que existiam aqui há dez anos atrás - os garotos estavam estáticos. - Em meio às madrugadas... se ouviam os gritos estridentes e, sempre logo cedo, encontrava-se o corpo de um cidadão saleziano com a garganta toda estraçalhada. Isso quando não eram outras partes do corpo, mas não me cabe aqui descrever tamanha situação medonha - todos se enfezaram, querendo mais detalhes.
Voltando-se para Alfredo Constantino, Joaquim interrompe sua narração para lhe dirigir um olhar perfurador aonde tinha seus olhos estreitados, como se quisesse esquadrinhar a alma de seu velho amigo para então poder interpelá-lo bem melhor. O homem parecia acuado.
- Então, Constantino, até você com sua teimosa e implicância, e sendo rabugento como sempre foi, não poderá me desmentir em relação a tais acontecimentos em que narro neste ponto da minha estória - fez uma breve pausa, estudando-o seriamente. - Pois, como eu, você também foi testemunha auditiva de tais fatos ocorridos há uma década, aqui, em Salém. Não tente negar, pois há anos residimos na cidade. E então? Ainda terá a pachorra de me acusar de "Mestre da conversa fiada?” - O homem empalideceu.
-Tudo bem... - baixou a cabeça, em sinal de confirmação. - Até este ponto sou obrigado a confirmar os acontecimentos narrados por você, mas devo lembrar que sei aonde quer chegar exatamente com isso. É aí que entra sua velha conversa fiada de sempre - levantou-se com uma agilidade impressionante. - De achar que tudo que acontece em Salém é de cunho pré-natural.
- Não vamos discutir isso agora - disse o contador, num engasgo. - As nossas opiniões sempre foram as mais distintas sobre coisas estranhas que, durante esses dez anos, têm atormentado esta cidade. E não me lembro de fato mais assustador que aquelas mortes - olhou os garotos ansiosos por saber mais. - Pelo menos, já tenho seu testemunho, pois você é o mais cotado à argumentação. Isso ainda provoca calamidades locais. Sabes bem que as pessoas da cidade ficaram aterrorizadas, e ninguém se atrevia a sair de casa, principalmente pela madrugada.
- Tem razão - afirmou Constantino, numa lembrança ameaçadora. - A policia não conseguiu encontrar explicação para as misteriosas mortes ocorridas. Os autos atestavam que uma "coisa ainda não identificada" atacava as vítimas, rasgando os pescoços com seus dentes caninos. Esta foi a única pista que os investigadores da época conseguiram pela marcas apresentadas nos corpos com os pescoços dilacerados. Mas o que deixava todos perplexos, inclusive a imprensa local, era a dúvida que martelava na cabeça. Que tipo de pessoa faria tamanho estrago e desaparecer tão misteriosamente e sorrateiramente, sem deixar pistas de onde poderia ter surgido? Um canibal hematófago? E para onde o tal fugia depois de feitas as vítimas?
- Sei que muitos, agora, estão a perguntar em que o casal de jovens que acabara de chegar à cidade poderia ter relação com tais mortes - Joaquim percorreu os olhos vivos pelo espaço, observando cada rosto a sua frente. - Aparentemente nenhuma. Sei que tudo se tornou fato quando os dois apareceram por essas bandas. Mas, logicamente, que tal situação poderia ser pura coincidência, o que não me convence. Por isso, cabe-me honrar mérito a um novo personagem. O recém chegado, chega em uma gélida manhã de inverno desembarcando na rodoviária de Salém. Sua bagagem era grande, três enormes malas. Isso fez com que ele precisasse convencer, à guisa de uma gorda gorjeta, que dois fortes adolescentes próximos dos ônibus estacionados o ajudassem no carregamento dos objetos pesados, e de bate – pronto lhe dessem duas valiosas informações. A primeira era onde um forasteiro exausto e com fome como ele, pela viagem longa e cansativa que tivera de fazer até aquela pequena cidade, poderia encontrar uma pensão onde pudesse saciar sua fome e descansar. A segunda informação era saber onde se localizava a prefeitura da cidade. Depois de receber umas informações necessárias, o próximo passo seria ir ter com o prefeito da época.

- Os que viveram aqueles dias ainda se lembram de seu nome - disse Constantino, com vanglória no tom de voz. - Aliás, hoje ele continua na política, fazendo parte da respeitabilíssima câmara de vereadores, mas, há dez anos atrás, era o prefeito Justino Onça de Albuquerque.
Os garotos estavam abismados. Por mais que a precisão dos fatos não sublevasse o mérito do antigo prefeito, todos estavam extasiados com a estória misteriosa. Quem seria o novo homem que chegara a cidade com tão portentosa bagagem? Disso, eles saberiam bem mais tarde.

CONTINUA...


**Salém é uma